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Talvez a vida embace as coisas de propósito

Lu Anachi
2 de out.
3 min de leitura

Estou olhando, mas não estou vendo
Estou olhando, mas não estou vendo

Uma estranha magia acontece com todos os seres humanos por volta dos 40 anos e, tenho quase certeza, Jung não nos contou nada sobre isso.


Sabe aquela pessoa que afasta o celular para ler alguma coisa? O exato tipo de comportamento que faz qualquer jovem usar a palavra “cringe” sem pensar?


Por volta dos 40 você começa a ser essa pessoa. Do dia para a noite, um presente chamado Presbiopia chega via whatsapp e começa a deixar tudo meio borrado. Letrinhas miúdas vão se tornando linguagem fantasma.


Não adianta reclamar. Sua dieta a base de cenouras não resolverá. Se sua avó raiz falou que comer formigas era “bom para as vistas”, aos 40 não funciona mais. 

Você vai comer recheio de formiga e só vai notar se o gosto estiver muito duvidoso.



Enxergando de verdade x reagindo sem ver

Mas, talvez exista algo mais interessante nessa história.


No momento em que você para de enxergar aquelas letrinhas minúsculas e começa a afastar as coisas um pouco, vai perceber algo que talvez não estivesse atento antes.


No princípio é uma sensação. Mas, pode se tornar uma pergunta literal:

Não era assim que deveríamos fazer, sempre que possível, com tudo na vida? Tomar alguma distância, prestar atenção de verdade no todo, entender com clareza, e só depois responder?


Existe um estudo de Adam Alter em que fizeram a seguinte pergunta: 

Quantos animais de cada espécie Moisés colocou na Arca?

A maioria das pessoas respondeu que foram dois.


A equipe decidiu fazer a pergunta novamente, mas dessa vez usando uma fonte ruim de leitura, daquelas que você precisa se esforçar para ler mesmo que tenha uma visão perfeita.

Pasme.

Foi só assim que cerca de 35% das pessoas notaram.

Moisés, não fez isso.

Foi Noé.


Alguns participantes do estudo só prestaram atenção na pergunta quando a letra estava ruim. Quando era legível, respondiam no automático.

Adam Alter diz pensar em atenção como sendo um orçamento. Temos um limite diário para usar. 


O que acredito ser válido destacar disso é que tendemos a gastar muita atenção em coisas insignificantes, mas que parecem grandes e urgentes e reagir no piloto automático naquilo que precisava de mais atenção.


Você fica horas pesquisando algo para seu chefe, algo que sabe que ele não se importa realmente, mas não gasta dez minutos prestando atenção real no que seu filho está falando porque pensa que já ouviu isso antes.



Um mecanismo de foco

E se essa presbiopia for um mecanismo inteligente para fazer a gente parar um pouco? Ser mais cuidadoso com a nossa leitura do mundo?

E se o que parece falta de foco for, na verdade, algo que está nos obrigando a focar ainda mais?


A vida sabe que se deixar, humanos ficam correndo para lá e para cá sem saber o que priorizar. Sabe que pensamos que somos eternos até nos depararmos com uma ruga, um cabelo grisalho, um olho sem foco.


Sabe que passamos por aí sem atenção, quebrando o que está no caminho, espalhando cacos de vidro e, ainda, furando o próprio pé na volta. Evidente que teremos ainda a audácia de perguntar quem fez isso, sem conectar que fomos nós mesmos.


Na prática, quando as coisas não parecem claras, evite a impulsividade. Não responda no calor da raiva, não compre no impulso do desejo, não jogue na hora do desespero.


Está borrado de propósito. É para você parar alguns segundos para entender com clareza. A realidade vai aparecer e você vai responder ao que é, não ao que imagina que é.

Outra forma de ver isso. Talvez, coisas tão pequenas e insignificantes no contexto geral da sua vida não mereçam tanto do seu foco. Talvez este seja o seu momento de começar a prestar atenção nas coisas maiores e mais importantes para você.


Não precisa mais ler o discurso de ódio do rótulo da caixinha de fósforos. Você já o conhece bem... Foque agora em ler o livro, ler o seu filho, ler a sua família, ler seu momento atual.

Sim. Você ganhou uma vista cansada. Isso te obriga a criar uma certa distância. Distância gera perspectiva.


E perspectiva… Pode ajudar a adquirir sabedoria.

Talvez seja isso que a presbiopia esteja tentando avisar. Algumas coisas precisam ser afastadas do rosto, para serem vistas do ângulo certo.

 
 
 

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